Facilitação de processos: libertando o pulso da vida

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Por Ana Biglione

Se quisermos chegar a alguma percepção viva da natureza, nós mesmos devemos permanecer tão rápidos e flexíveis quanto a natureza e seguir o exemplo que ela dá. (Goethe, in Miller, 1998:64)

“Precisamos fazer girar essa engrenagem”. “Quero tudo funcionando como um relógio”. É muito comum ouvirmos metáforas de sistemas e máquinas para falarmos de processos que envolvem pessoas, organizações, situações sociais. Mas, ao fazermos isso, esquecemos do óbvio: não somos máquinas e não nos comportamos como tal. Somos organismos vivos. 

Vinda de uma vida plenamente urbana e moderna, me graduei em administração de empresas e, antes disso, estudei em um colégio tradicional de São Paulo. Conto isso para reconhecer que a maneira como fui predominantemente ensinada a pensar e a agir teve como referência uma lógica mecanicista, onde até mesmo cuidar de pessoas e dinâmicas presentes em uma organização segue premissas de uma produção industrial – na qual podemos controlar os movimentos, separar e manipular as partes para alcançar um resultado previamente determinado; uma lógica que vê tudo como partes de uma grande máquina. Algo nisso não se assentava em mim, e foi ao estudar Goethe e a abordagem da prática social reflexiva, que pude ir, aos poucos, me transformando e compreendendo as inúmeras camadas das incongruências presentes nessa forma de pensar – tão predominante e até por isso, também tão pouco perceptível a todos que, como eu, cresceram dentro dela.

Craig Holdrege (2017), em uma palestra com o lindo nome “Dando aos organismos vivos uma voz”, começa descrevendo o crescimento de uma planta a partir da semente. Nos faz imaginar a semente germinando na terra, raízes crescendo na direção ao escuro da terra, broto e folhas rumo à claridade do sol. E conta que temos o hábito de dizer que primeiro vem as raízes, depois o broto, caule e folhas. Mas, na verdade, na medida em que as raízes crescem e buscam por nutrientes, o broto e folhas crescem e fazem fotossíntese… um processo precisa do outro para acontecer, nenhuma parte da planta se desenvolve sem relação com a outra. É assim que se dá o existir de um organismo vivo: um processo contínuo de inter-relação entre suas partes e delas com seu ambiente. 

Façamos uma pausa nesta ideia: uma planta, um organismo vivo é um processo contínuo, uma atividade pulsante.

As formas de vida não são obra acabada, mas sempre formas em devir e sua potência de ser diferente é um aspecto imediato de sua constituição interna. O devir que pertence a esta constituição não é um processo que se esgota quando atinge um determinado fim, mas uma condição de existência, uma necessidade de mudar para permanecer o mesmo. (Brady, 1987:287)

Nossa mente, tão acostumada a ver partes e produtos separados e inertes, costuma nos enganar. A planta estática é uma ilusão da nossa visão que ignora a dimensão do tempo; confundimos a foto de um momento daquele organismo com um objeto sem movimento, que nunca teve outra forma. Mas nada na planta é realmente estático ou permanente: a todo instante cada uma de suas partes está se transformando – essa é sua condição de existência. 

Um segundo aspecto dos organismos vivos é a relação intrínseca que todo organismo tem com seu contexto, com seu ambiente. O lado da montanha onde uma planta está – voltada ao sol ou não, com água escassa ou abundante, entre inúmeras outras características do seu ambiente – define completamente a forma, a expressão, a maneira como se dá seu devir. Holdredge nos mostra uma imagem de um mesmo tipo de árvore e essas notórias diferenças: como as que crescem de um lado da montanha acabam por ficar mais bojudas e baixas e as do outro lado mais esguias, sem tantas folhas ou galhos. Ainda que carregue suas próprias predisposições, tudo que é vivo é uma expressão do contexto ao qual pertence, ou da maneira como se relaciona com esse contexto. Em meio às milhares de possibilidades que aquela planta teria para vir-a-ser, a planta que ela é, advém dessa relação. Uma relação que em si mesma não é estática, nem unilateral, pois a própria presença da planta ali também interfere nesse contexto, o compõe. Fernando Pessoa uma vez disse: “nada é, tudo coexiste”. 

Não tenho aqui a pretensão de esgotar as características centrais da vida, mas sim atentar para o fato de que processos que envolvem pessoas e organizações, processos humanos e de desenvolvimento são vivos e ainda mais complexos que os naturais, afinal, somos seres dotados de autoconsciência1. Se não formos capazes de ver e tratar esses processos como vivos estaremos não só deixando de honrar essa sua essência e criar condições para lidar com eles a partir dela, mas justamente contribuindo para torná-los estáticos e sem vida, reduzindo a própria vida que há ali. Talvez isso inclusive explique parte do tamanho sofrimento que encontramos hoje em organizações e em situações pessoais ou profissionais. Talvez estejamos tratando fenômenos vivos como inertes e querendo que as pessoas envolvidas se tornem igualmente reduzidas a tal. 

Uma das ideias centrais contidas na fenomenologia é justamente essa de que “o tipo de atenção que prestamos ao mundo muda o mundo ao qual estamos prestando atenção” (McGilchrist, 2009:43). Como, então, temos olhado para as situações, pessoas ou organizações com que nos relacionamos? Como estáticos ou vivos? Como fenômenos isolados e independentes ou inter-relacionais e porosos, cujas relações estão permeadas de contexto e sentido? O que poderia ser diferente ao buscarmos maior consciência sobre nosso próprio olhar?

Outro dia, em um encontro que iria facilitar, propus que definíssemos o tema a ser trabalhado em uma dinâmica construída junto às pessoas do grupo ali na hora, a partir de um processo no qual perguntas fossem trazidas pelas próprias pessoas; perguntas carregadas dos temas e necessidades presentes naquele momento. Um parceiro então questionou: “não seria mais fácil a gente chegar com o tema pré-definido? Tenho receio de não chegarmos ao tema em conjunto com eles e ou de chegarmos a um tema que não conhecemos bem”. “É um risco”, eu respondi. Ao mesmo tempo, levar um tema pré-definido poderia limitar a possibilidade de temas de antemão, não dando voz ao que está vivo como necessidade no grupo, e deixando de adentrar em uma conversa que poderia estar cheia de um sentido mais pleno, nascido do próprio grupo. Com um pré-definido, meu receio, então, era que a conversa ficasse reduzida a um tema que, de algum modo, estaríamos impondo a eles e que não necessariamente fizesse sentido naquele momento; a conversa ficaria presa à nossa visão (do que cremos importante ao grupo) e possivelmente superficial ou sem vida. Esse era o risco alternativo presente. Mas, diferente do primeiro, onde tememos que as coisas “saiam do nosso controle”, o risco de estarmos reduzindo o que poderia ter sido é o tipo de risco que a gente quase nunca vê. 

A intenção de uma facilitação de processos cuja raiz é a fenomenologia Goetheana é, em grande parte, trazer para nossa consciência esta busca pela maneira como estamos olhando para o que vemos, por ver com mais profundidade o que se apresenta. E, diferente de gerenciar, dirigir ou impor, facilitar é o caminho cujo olhar e relação – com as situações, pessoas ou organizações – deseja ser coerente, adequado ao âmbito ao qual pertencem, neste caso, ao âmbito da vida, e à sua infinita magnitude e complexidade

Nesse sentido, facilitar processos pressupõe uma mudança de postura, da maneira de se relacionar com o que se apresenta – uma atitude tanto necessária quanto audaciosa.

Para apreender o processo, temos que mudar o nosso modo de ser – optar por um modo que é, simultaneamente, dentro e fora, participante e observador, analista e artista. (…) Tal capacidade exige o desenvolvimento do pensar e também de novas faculdades. (Kaplan, 2005:21)

Para sermos capazes de apreender e intervir em processos que são vivos de forma respeitosa, idealmente salutar, todo nosso “modo de ser” está em jogo. O campo que adentramos com a facilitação é o das dinâmicas subjacentes, de atividades que não podemos ver com os olhos, mas sim perceber com nossos sentidos mais sensíveis. Estamos no âmbito das relações, dos padrões, das forças criativas e generativas que tudo que é vivo sustenta como princípios primordiais de existência. Quando vemos o processo de crescimento da planta, que Holdredge nos convida, vemos não apenas com nossos olhos físicos – que, muitas vezes, só podem perceber a planta como algo estático – mas sim com olhos “internos”, com nosso pensar e sensibilidade cognitiva. Quando facilitamos também, o que é visível fisicamente é uma parte, ou talvez uma porta, para o todo que “vemos”. E isso é, por si só, um grande desafio. 

Steiner (2015), ao tentar nos fazer compreender mais das sutilezas presentes nas dinâmicas sociais, nos traz como exemplo a imagem de que engenheiros têm a ponte ou a construção como resultado claro e expresso em matéria do resultado do seu trabalho. Se uma ponte ruir saberemos que foi mal feita. Mas no campo em que estamos navegando com a facilitação, assim como no campo da transformação social, as pontes não são materiais e para sabermos de os reais efeitos das nossas ações, dependemos de inúmeros fatores intangíveis como a percepção das pessoas, o desenrolar das situações no tempo, nossa própria capacidade crítica e reflexiva. 

Se eu penso novamente no exemplo que contei, sobre a facilitação que propõe que busquemos o tema a ser conversado a partir do próprio grupo, o que me vem é: nada é garantido ou pode ser conhecido de antemão, apenas o desenrolar do encontro e da conversa, minhas escolhas e sensações ali na hora e depois, assim como as das outras pessoas e os próprios desdobramentos que vierem a acontecer nos trarão notícias reais sobre os resultados obtidos. Ao escolher abrir espaço para uma conversa “viva” acontecer, reconhecemos que talvez jamais pudéssemos prever essa conversa de antemão a partir de uma atuação tecnicista pré determinada, mas que, a partir de uma prática consistente de facilitação, sustentamos a intenção de fomentar condições para que ela aconteça livremente, criando um espaço de abertura para que o que quer acontecer, possa acontecer. Não será facilitar processos então também sobre criar um ‘vazio generativo’, um espaço de germinar futuro?

Desenvolver uma prática de facilitação exige que aprofundemos capacidades cognitivas sutis de leitura e intervenção, capacidades que, tal como Goethe nos provoca, fazem caminhar nosso pensar rumo à características essencialmente presentes no âmbito da natureza como um todo, dos organismos vivos, tais como maleabilidade, abertura e responsividade. 

Caminhar nosso próprio processo de desenvolvimento nesta direção talvez nos ajude a tocar na complexidade da vida a partir de um lugar diferente daquele que estamos habituados ao “comandar e controlar”, ao planejar de antemão e pré-estabelecer resultados: um lugar de liberdade e, ao mesmo tempo, de engajamento e responsabilidade. “Respeitamos a liberdade humana não em teoria, mas como a própria essência de uma prática social” (Kaplan, 2005:7). 

Quem sabe facilitar processos possa vir a ser a nossa maneira de nos relacionarmos à moda da natureza – a partir de uma consciência permeada por suas qualidades, ou ainda: a mais sincera ode humana à Vida. 

  1.  Vale aqui ressaltar que isso não exclui o ser humano como parte da natureza, ou do mundo “natural”, mas que complexifica o tipo de relação que ele estabelece com ela, com o mundo. Ao mesmo tempo em que estamos incluídos na natureza (somos seres vivos), há algo que nos distingue dela (nossa consciência) e nos torna co-partícipes e co-responsáveis no processo de desenvolvimento e devir desse mundo.

Bibliografia

Brady, Ronald (1987). Goethe and the Sciences: A Reappraisal. Holland: D. Reidel Publishing Company

Holdrege, Craig (2017). Giving Living Beings a Voice. The Nature Institute. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=W_fT1MvUYPk. Acesso em: 19.jun.21

Kaplan, Allan (2005). Artistas do Invisível: o processo social e o profissional de desenvolvimento. São Paulo: Ed. Fundação Peirópolis. 

Kaplan, Allan (2005). Emerging out of Goethe: Conversation as a Form of Social Inquiry. Janus Head, Volume 8.1, Goethe’s Delicate Empiricism, Trivium Publications.

McGilchrist, Iain (2009). The Master and His Emissary: The Divided Brain and the Making of the Western World. Yale University Press.

Miller, Douglas (1998). Scientific studies. Goethe: The collected works. Princeton: Princeton University Press.

Steiner, Rudolf (2015). Economia e Sociedade à luz da Ciência Espiritual. São Paulo: Editora Antroposófica.

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