O que significa “facilitar processos”?

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por Ana Paula P. e Chaves Giorgi

Ao querer trabalhar com comunidades rurais sem ser especialista nas áreas técnicas de saúde, educação ou agronomia, me descobri facilitadora. Se conhecimento especializado eu não tinha, o que eu poderia oferecer? 

Percebi que minha experiência com aprendizagem não-escolar, treinamento de pessoas, estruturação de projetos, organização de eventos e processos educativos junto com formações acadêmicas variadas, me deram competências necessárias para ajudar as pessoas a se organizar para atuarem juntas; ajudar a conversar, a tecer, a refletir, a se olhar. Aos poucos – e com muita dedicação – fui afiando minhas habilidades sociais para escutar melhor, falar menos, ouvir muito, fazer perguntas, trabalhar dinâmicas que levassem à reflexão e gerassem força suficiente para chegar à ação. Também fui percebendo que o tempo de mudança é pautado pelo tempo da aprendizagem e que aprender significa transformar algo em si próprio antes de conseguir mudar algo no mundo – e isso demanda um esforço respeitável. Os conhecimentos, as habilidades e as atitudes pautadas nessa máxima é que foram me tornando competente como facilitadora.

Desenvolver processos que abram espaço para as pessoas ocuparem esse lugar de reflexão, aprendizagem e desenvolvimento torna-se assim, não só o trabalho, como também o lugar de desenvolvimento do facilitador. O desenvolvimento do outro acontece com o meu desenvolvimento e essa troca, essa relação viva e em constante movimento talvez seja o significado de facilitador, pois ela traduz a condição primordial de nossa humanidade: nascer, crescer e se desenvolver na relação, em relação com o outro. “Umuntu ngumuntu ngabantu”, um provérbio Zulu resume esse conceito em poucas palavras: “uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas”. 

Desse provérbio deriva o conceito de ubuntu, uma categoria básica da ética africana  “consistente com a posição filosófica de que o movimento é o princípio do ser”  e que “tudo que é percebido como um todo é sempre uma totalidade”! (RAMOSE, 2002, grifo meu)

Não se pretende aqui simplificar um termo tão profundo e complexo como o de ubuntu, mas sim o de tornar visível a complexidade envolvida no processo de facilitar. A polaridade presente no prefixo ubu e a raiz ntu, coloca em movimento a relação entre o que está em contínuo movimento como um vir à ser, e aquilo que se manifesta como algo concreto.  E esse movimento que é percebido como uma totalidade, na cultura africana, está intrinsecamente conectado às relações sociais. 

Pois é nesse espaço de troca, de aprendizado e de relação que vive a facilitação; pois só ali o vir a ser e sua potencial manifestação concreta podem germinar algo novo, algo verdadeiramente único em cada situação. A facilitação, portanto, não vive na busca de respostas e de soluções, mas na co-criação permanente desse entremeio, desse espaço, que é aberto e generativo. 

O que nos leva a um paradoxo dessa nossa profissão, como postulava um colega facilitador: se ela for extremamente bem feita, sua participação terá ficado invisível. Essa invisibilidade diz muito da capacidade de um facilitador de ajudar a construir espaços e tempos – uma tessitura de transformação – que é geradora de mudanças, onde os envolvidos tornam-se empoderados, autônomos e conscientes de seu papel a ponto de se perceberem capazes de tomar seu destino em suas próprias mãos e se enxergarem como um só organismo. 

Ainda que não sejamos capazes de ver essa tessitura à olhos nus, ela está lá. E nós, como facilitadores, temos que aprender a “enxergar para podermos compreender o organismo social com o qual devemos interagir. E compreender significa desenvolver a habilidade de apreender o todo, os campos invisíveis que compõem a organização que se manifesta.” (KAPLAN, 2005:87, grifo meu). 

O termo facilitador tem sido usado ultimamente para denominar um campo de atuação profissional voltado para o apoio ao desenvolvimento de pessoas e instituições – uma profissão sofisticada e inovadora. Mas para nos tornarmos verdadeiros facilitadores, o caminho inclui escolhas que dizem respeito a trabalharmos e desenvolvermos quem somos, rever nossa própria compreensão do contexto em que estamos inseridos, reconhecendo que 

(…) nós mesmos temos que nos tornar nossos próprios instrumentos. Essa é a compreensão alquímica: o mundo de fora e o mundo de dentro são um só, são a mesma coisa, eles tomam um do outro, eles dão um ao outro. Nós somos participantes do desenvolvimento e da evolução daqueles com os quais trabalhamos; é por meio deles que nós desabrochamos e emergimos. Essa é a ciência da cocriação. (KAPLAN, 2005:232)

Referências

RAMOSE, Mogobe B. (1999). African Philosophy through Ubuntu. Harare: Mond Books, p. 49-66. Tradução para uso didático por Arnaldo Vasconcellos. 

RAMOSE, Mogobe B. (2002). The ethics of ubuntu. In: COETZEE, Peter H.; ROUX, Abraham P.J. (eds). The African Philosophy Reader. New York: Routledge, p. 324-330, Tradução por Éder Carvalho Wen.

KAPLAN, A. (2005). Artistas do Invisível: o processo social e o profissional de desenvolvimento. São Paulo: Peirópolis.  

Imagem: Estúdio Barbarella

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