Há espaço para a morte durante a vida? Como falar sobre a morte com crianças?

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Quando um barco desaparece no horizonte, ele não “sumiu” apenas porque está fora da nossa vista…
Elisabeth Kübler- Ross

Por Melanie Guerra

A morte é a irmã mais velha da vida e não temos dúvida de que ela chegará para todos um dia; mais cedo ou mais tarde, sendo apenas uma questão de tempo. Ao inspirarmos o primeiro sopro de ar na vida, a morte anuncia sua existência e cada qual ruma em direção à irmã mais velha da vida de uma forma própria e individual, para a expiração final.

Talvez pareça mórbido e depressivo o primeiro parágrafo, no entanto trata-se da única certeza que temos como seres humanos conscientes: a morte chegará um dia. Se ela é parte integrante da vida, por que fugimos dela? Por que o assunto é tratado aos sussurros e não pertence ao dia a dia das conversas? Poucos a tratam na família, na mesa do botequim, ainda menos no âmbito escolar.

Mas há pessoas que se ocupam da tanatologia e de suas decorrências. Poetas, filósofos, médicos, psicólogos, clérigos, legistas procuram dar alguma contribuição ao assunto que parece inexplicável para grande parte dos viventes. Muitos dizem que a vida adquire sentido por conta da finitude; dessa forma, poder-se-ia compreender que há algo a ser realizado ou vivido em certo espaço de tempo. Não dominamos esse período de tempo e, certamente, seria uma tortura se conhecêssemos o dia do nosso fim.

A concepção da morte passou por grandes transformações ao longo da história da humanidade. Os antigos hindus festejavam a morte, parceira que os absolveria de todas as penitências terrenas e os levaria à verdadeira vida eterna. O ser humano contemporâneo, contudo, preza e luta por manter-se vivo, compreendendo ser este seu maior valor: a vida!

Em tempos de pandemia, o tema da morte vive com força nos poucos ambientes em que circulamos; muitos perderam parentes, amigos, conhecidos e mesmo desconhecidos, mas em números assustadores. Essa situação nos traz medo, preocupação, banha a noite de ansiedade e leva alguns à depressão. A vida, este grande e inestimável bem, está ameaçada por um vírus microscópico. Como lidamos com esta situação? Como nos dirigimos às crianças que sofrem com a falta de preparo da sociedade para trazer-lhes algum conforto?

Provavelmente, estamos intricados em uma cultura da vida a qualquer preço, assolados pelo materialismo, consumismo, imediatismo e por uma definição de felicidade que estabelece uma pobre relação com o devir humano, com um verdadeiro caminho de formação baseada na dignidade humana para todos. Os adultos de hoje, em sua grande maioria, interiorizaram uma imagem negativa, ruim e feia da morte, por meio do estereótipo do esqueleto armado de foice. Não lhes foi oferecido um espaço aberto de reflexão, conversa, conhecimento de diferentes visões sobre o tema. Poucos tiveram a experiência que permitisse conhecer a morte por meio da arte e suas diferentes modalidades – pintura, escultura, música, narrativas mitológicas e o teatro… – a possibilidade de falar desse imenso medo, temor e horror diante desse fato, de expressar a pergunta: existe vida após a morte?

Certamente, não há respostas prontas que podemos ler no Instagram ou no Facebook, mas se trata de uma elaboração própria que pode ser intermediada por diálogos significativos, leituras, estudos e processos artísticos sobre o assunto. A médica suíça que migrou para os EUA, Elisabeth Kübler-Ross 1, dedicou-se ao estudo sobre a morte e o morrer e apresentou estágios pelos quais cada qual passaria ao lidar com a ausência da vida. Ela aponta como a perda faz parte de um importante processo de mudança, metamorfose e transição.

Seria desejável que o adulto pudesse apontar caminhos para as crianças, que estão vivendo o drama mundial da morte em larga escala. O que podemos fazer? O que podemos falar? Certamente, há abordagens distintas de acordo com a idade da criança ou do jovem.

Objetivando aqui as crianças dos primeiros anos escolares, um caminho mediado pelas narrativas, por meio de imagens ancestrais, poderia acalentar um coração aflito. Escolher-se-iam narrativas não dogmáticas que não transmitem um fim em si, mas apontam possibilidades para tatear o tema. As histórias trazem um contexto para morte e as imagens contidas nela uma forma de conseguir construir um repertório interno para paulatinamente lidar com o assunto. Muito comum na pedagogia Waldorf e sugerido por Rudolf Steiner, as imagens da lagarta, do casulo e a metamorfose em borboleta mostram a transformação a que estamos sujeitos. Tal qual imagem arquetípica, também Elisabeth Kübler-Ross2 fez uma narrativa para uma criança à beira da morte utilizando-se da transformação da lagarta em borboleta. Existem muitas histórias com esta temática.

Há narrativas que tratam o ciclo da água apresentando uma bonita metamorfose do estado da água e seu caminho entre céu e terra, sugerindo, assim, diferentes estados e lugares que podemos ocupar. A planta completa também se nos apresenta como arquétipo de uma clara transformação; a semente deixa de ser semente para se transformar em planta e não nos lembramos mais dela. Quando a planta se enche de lindas flores e, após um tempo estas murcham, a flor deixa de existir e temos o fruto. Do fruto vem a semente e um novo ciclo reinicia. Trata-se de imagens muito simples que vivenciamos cotidianamente, mas que carregam em si um potencial de transformação que pode trazer conforto a uma criança que está cercada por imagens brutais e pouco dignas acerca da morte.

A maior parte das culturas apresenta cosmogonias e mitologias que recontam o vir a ser do mundo e o seu fim, a morte. As tragédias gregas trazem os mais incríveis relatos sobre a morte, como em Antígona, de Sófocles, e na Ilíada, de Homero. A reverência aos mortos e os cerimoniais fúnebres são relatados em pormenores, dando expressão ao direito ao luto – aspecto necessário e sadio para lidar com a perda e tempo para se dedicar à honra da pessoa falecida. Pode-se compreender esse momento como muito salutar, que proporciona espaço e sentido para uma elaboração pessoal acerca do assunto.

Seria muito benéfico se as crianças pudessem escutar ou ler essas narrativas, apropriadas a cada faixa etária, naturalmente. Elas anunciam e englobam a morte na vida e segredam que há um caminho individual e misterioso a ser percorrido. Ainda melhor se puder haver uma expressão artística relacionada à narrativa, a possibilidade de desenhar, cantar, declamar, encenar, esculpir etc. Nessa atividade, a criança poderá colocar a sua expressão singular e individual relacionada à dor, perda ou compreensão sobre o assunto.

Nós, adultos, presumimos que as crianças não sabem lidar com o tema morte e procuramos evitar o assunto, contudo tive muitas experiências que contestam esse paradigma. Muitas vezes, percebi que compreenderam algo além das muitas narrativas que contei sobre o tema ao longo dos anos do Ensino Fundamental em uma escola Waldorf. Também, sentiram-se confortadas com as imagens e respeitadas em sua dor. Vamos conversar sobre a morte…

1 KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Sobre a Morte e o Morrer. São Paulo: Martins Fontes, 1985.
2 KÜBLER-ROSS, Elisabeth. O Túnel e a Luz. São Paulo: Editora Verus, 2003.

Crédito da imagem: Nicole Dale

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