O que a pergunta pesca? Uma exploração da centralidade da pergunta.

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Por Patricia Busatto

Escrever um texto sobre perguntas é tudo menos óbvio. Não pode ser um texto conclusivo, porque isso em si trairia a natureza do assunto. Nem trazer apenas perguntas, porque tampouco há diálogo fluido quando pautado exclusivamente sobre elas – talvez até seja possível, mas deve ser extremamente cansativo… Também porque todos temos experiência com perguntas, desde sempre, e se somos todos experts, como sair do óbvio e trazer algo que acrescente? 

Uma fala que ouvi recentemente de alguém expoente na sua área de atuação me inspirou. Ele disse que, cada vez que queria aprender sobre algo, escrevia um livro. O paradoxo contido neste comentário soou como um princípio, uma premissa: se eu puder, ao escrever sobre a pergunta, gerar ainda mais e novas perguntas, criar movimento dentro de mim (porque ao fazer isso em mim poderei fazer ao outro), então “estarei salva”, plagiando Clarice Lispector.

Uma das características da pergunta é esta: gerar movimento. No próprio som de uma pergunta, se falada em voz alta, de fato ou mesmo apenas imaginativamente, percebemos que ela acaba num ponto de equilíbrio instável, numa beirinha, iminência que convida a um próximo estado. Só que antes de explorar esse aspecto com mais profundidade, talvez precise alertar que nem toda pergunta é fiel à sua própria essência (algumas se perdem de si mesmas…), ou seja, talvez precise rememorar a qualidade autêntica das perguntas, que quando carregadas de intenção e verdade, nos convidam a nos curvar diante delas em honrarias:

“Tenho um profundo respeito pelas perguntas. (…) Acredito que a qualidade de nossas vidas depende da qualidade das perguntas que fazemos e levamos a sério. A pergunta certa pode mudar o curso de sua vida. Uma pergunta perspicaz pode abrir você para … a voz de sua alma. … isso é ouro puro”, caracterizou Caryl Ann Casbon às perguntas a que dedico estes escritos reflexivos.

Uma boa pergunta é ao mesmo tempo resultado e disparadora da reflexão. Chegamos a uma pergunta quando alcançamos o máximo da compreensão sobre algo e precisamos transcender, quando este algo como que atinge o auge da sua própria forma, e tal qual um ventre grávido, dá à luz a si mesmo, na forma de uma pergunta, que então leva ao próximo movimento. E o ciclo continua. 

Tem algo de ação intrínseco à pergunta. Uma pergunta é atividade. E se isso é verdade, ao observar com atenção qualquer ação, podemos depreender a pergunta motriz que a provoca. Ao mesmo tempo, uma pergunta é pausa. Como aquele momento mágico na nossa respiração, em que inspiração e expiração se tocam, e se invertem. Como um mistério às claras, fugaz e fugidio, mas sempre ali.

Falando em fugacidade, um dos maiores desafios que enfrentamos é justamente a velocidade – elevada – do nosso pensar. Muitas vezes batemos o olho em algo e quase que instantaneamente atribuímos à observação o respectivo conceito associado. Impomos ao que vemos aquilo que já tínhamos pronto dentro de nós como ideia conceitual. Nos apressamos em “resolver a Gestalt” inconscientemente, e isso faz com que percamos o foco da observação, ou melhor, o foco na observação, na atividade pura de observar. Somos nossos próprios algozes ao estampar um pensamento requentado na forma de conceito por sobre uma refeição fresca que está sendo apresentada na nossa frente. Você já parou para pensar quando foi a última vez que você viu algo antigo e conhecido pela primeira vez?

A pergunta pode ser uma grande aliada em burlar o aspecto constitucional da aceleração que temos – justo por sua característica de pausa. Será que podemos nos apoiar na pergunta como uma ajudante que permite manter o frescor na observação, na experiência, auxiliando a suspender momentaneamente nossos conceitos e julgamentos envelhecidos? Como que se a pergunta mediasse – de modo imediato – nossa relação com aquilo que é observado? Ou seja, não colocando uma camada que nos afasta do observado, mas sim criando uma superfície mais lúcida de contato? Estou colocando aqui a pergunta então a serviço de desbastar e decupar os gatilhos inerentes da dinâmica da nossa constituição física e do nosso processamento mental: potencializando ao suspender.

Isto talvez ajude na compreensão de uma citação célebre de Goethe, enfatizando a qualidade de demorar-se ao observar algo, para de fato poder enxergar além – ou talvez enxergar o âmago do fenômeno observado: 

Por mais admirável que seja o método de Wolff, através do qual ele tanto alcançou, este excelente homem nunca pensou poder haver uma diferença entre enxergar e enxergar, que os olhos do espírito devem trabalhar numa conexão viva constante com aqueles do corpo, pois senão corre-se o risco de enxergar algo e ainda enxergar por sobre este algo.”

Uma pergunta coloca a pessoa em relação a algo, cria vínculo: ela se torna implicada e envolvida com aquilo com o que se relaciona. Não há como fazer uma pergunta genuína sem colocar-se, e sem requerer de certa forma uma intimidade com aquilo ou aquele a quem ou sobre o que se pergunta. A pergunta é engajadora, catalisadora ou reveladora de relações: relações de quem pergunta consigo mesmo, com o outro, com o meio. 

Uma das questões do nosso tempo é a ausência do aspecto conversacional, do diálogo aberto e construtivo, que edifica a si próprio na relação com o outro. Uma das perguntas mais famosas e talvez mais contundentes de que temos notícia é a feita por Jesus Cristo, “o que queres?”. Ela vem na mesma linha de outra pergunta famosa, a de Parsifal para Anfortas, “de que padeces?”. É um tipo de pergunta que exige uma presença muito grande, de quem faz e de quem responde. Uma consciência de si próprio e de suas necessidades, do pedido que vai se seguir – e das consequências que pode trazer. 

Sendo assim, a pergunta é matéria para trabalhar os temas sociais, para entrar em conversação. “As perguntas essenciais não têm respostas. Você é a minha pergunta e eu sou a sua – e então há o diálogo. No momento em que temos respostas, não há diálogo. As perguntas unem as pessoas, as respostas as dividem. Então, por que ter respostas quando você pode viver sem elas?”, compartilha Elie Wiesel desde uma irrefutável sabedoria. Ao mesmo tempo em que, ai, penso eu, talvez seja radical demais viver sem quaisquer respostas…

Seguindo um pouquinho adiante no raciocínio exploratório, cabe uma visita às expressões da linguagem. Porque a linguagem também dá notícia tanto das formas das nossas relações quanto das formas e estrutura do nosso pensar. Na língua portuguesa, temos cinco tipos de frases: exclamativas, declarativas, imperativas, interrogativas ou optativas. Rápida revisão para aqueles que, como eu, não lembravam disso: as exclamativas são usadas para expressar emoção, declarativas representam a constatação de um fato (afirmativo ou negativo), imperativas são usadas para emissão de ordens, conselhos ou pedidos, e por fim, a optativa expressa um desejo (e assim como a exclamativa é sinalizada por um ponto de exclamação).

As frases interrogativas, por sua vez, ocorrem quando o emissor, direta ou indiretamente, faz uma pergunta. É interessante notar que dentre as cinco, apenas a interrogação cria respiros e brechas. Enquanto todas as demais afirmam (positiva ou negativamente), a pergunta abre espaço para a reflexão que quer explorar. Como um portal para o futuro, que permite novas possibilidades. Enquanto afirmações podem relatar o que aconteceu, uma pergunta aponta para o vir a ser, para aquilo que quer emergir. Ela pode explorar o que aconteceu sem dúvida, mas o faz numa conexão intrínseca ao momento presente, com vistas a, quem sabe?, possibilitar construir um futuro melhor. Rudolf Steiner fala que “… a vida caminha de forma em forma. A vida em si é sem forma.” Será a pergunta veículo da vida, e as demais frases seus continentes, estágios, portos de chegada? Como vasos que se preenchem e depois perdem sua serventia ao novo, uma vez que já estão ocupados?

Mas afinal, o que a pergunta pesca? Se ao mesmo tempo em que nos coloca no presente, lança uma isca para o futuro? Se é manifestação e provocadora da relação e do engajamento? Se é a um só tempo pausa e movimento, reflexão e ação? Clarice Lispector diz que “… escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra.” Brincando com essa frase e com as palavras, me ocorreu que talvez o pensar seja o modo de quem tem a pergunta como isca… e que talvez podemos começar a brincar com mais algumas imagens para ir compondo a poesia-pescaria…

Pequeno Dicionário das Perguntas Pescadoras:

Perguntas-flecha: perguntas que são plenas de força. 
Como quando se pesca com flecha. 
Precisa, concisa. Contato visual, no raso, um peixe por vez. 
Perguntas-rede: perguntas exploratórias, que lançam tentáculos.
Pesca de rede. Arrastão. 
Pega tudo, sem seleção, sem critério a priori. 
Pergunta-anzol: perguntas afiadas, que engancham. 
Pescaria de anzol. Aquele curtido, que dá prazer, 
faz apreciar, contemplar.

Imagem: Pisces (2008). Patricia Busatto. Acrílica sobre madeira. 30 x 45cm.

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