Pedagogia de Emergência Pedagogia de Emergência

Pedagogia de Emergência: entenda como funciona no Brasil e seus benefícios

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Muito mais que um lugar onde se aprende as disciplinas básicas, a escola pode ser um ambiente de acolhimento. A Pedagogia de Emergência foca a sua atuação em locais hostis, nos quais as crianças se encontram expostas à violência. A ideia é, sobretudo, trabalhar traumas, já que, se não resolvidos, atrapalham a aprendizagem e podem se transformar em sérias sequelas.

A proposta pedagógica foi criada em 2006, por Bernd Ruf, professor alemão, e chegou ao Brasil em 2011. Conversamos com Reinaldo Nascimento, terapeuta social, educador físico, psicopedagogo e um dos grandes responsáveis por trazer essa atuação ao nosso país. Ele nos contou como essa Pedagogia é aplicada e quais seus grandes benefícios. Acompanhe!

O que é a Pedagogia de Emergência?

A Pedagogia de Emergência faz uso de conceitos elaborados pela Pedagogia Waldorf para atuar com crianças e jovens vítimas de traumas diversos, como os de violência urbana, guerra, terremoto, deslizamentos de terra e outros.

Ao fazer isso, enxerga o trauma a partir de 4 fases:

  • primeira fase: aguda ou de choque — aparecem reações fisiológicas, a exemplo de taquicardia e dor cabeça;
  • segunda fase: estresse pós-traumático — o medo e a tristeza são exagerados. Raiva, dificuldade de concentração e episódios de flashback são comuns;
  • terceira fase: surgimento de doenças — quando não há intervenção, existe grande probabilidade de ocorrer depressão e transtornos de ansiedade;
  • quarta fase: mudanças de personalidade — a criança se transforma de maneira negativa, podendo se tornar agressiva, praticar atos violentos e criar vícios.

O foco da Pedagogia de Emergência é atuar nas duas primeiras fases, evitando que o problema aumente. No Brasil, a ideia da iniciativa se deu em 2011, a partir de um seminário em Nova Friburgo, Rio de Janeiro. Como, na época, Reinaldo era responsável pelo serviço de voluntários entre o Brasil e Alemanha, foi convidado para fazer a tradução da teoria.

“Pela primeira vez, eu tive contato com o conceito de trauma, suas características, fases, os tipos, como acontece e quais consequências negativas afetam a vida das crianças, adolescentes e adultos. E o mais importante foi entender que com a ajuda da Pedagogia Waldorf poderíamos lidar com esses sintomas. Então, eu percebi que artes, música, teatro, desenho, pintura, passeios, contos também faziam muito sentido, quando usados em situações de catástrofes, conflitos e violência”, explica.

Como a Pedagogia de Emergência é trabalhada no Brasil?

Atualmente, existem equipes, que, por meio de cursos, workshops e seminários, ajudam a distribuir o conhecimento da Pedagogia de Emergência pelo Brasil. Os educadores usam, como mencionamos, abordagens da Pedagogia Waldorf, que enxerga a criança por uma perspectiva orgânica, física, psíquica e espiritual. Com isso, trabalham seu desenvolvimento integral, não se atendo apenas às metas de aprendizagem.

Contudo, nem sempre as intervenções acontecem diretamente com os alunos. Reinaldo conta que, no começo, essa, até, era a ideia. Porém, com o tempo, o grupo percebeu que trabalhar diretamente com o professor seria mais interessante, já que é ele quem está em constante contato com essas pessoas.

“Percebemos que jamais atingiríamos o número de crianças e jovens que gostaríamos. Foi, então, que compreendemos a relevância de passar esse conhecimento ao educador e a outros profissionais interessados, a exemplo de assistentes sociais, psicólogos, enfermeiros e médicos”.

Mas será que existem desafios nessa atuação, no país? Reinaldo afirma que sim. Muitas vezes, os cenários de violência já estão instalados há anos e isso pode tornar o trabalho mais complexo, já que podemos encontrar crianças e jovens nas fases três e quatro do trauma. Apesar do obstáculo, a Pedagogia de Emergência tem chances de conseguir efeitos positivos.

Um dos objetivos de trabalhar com o professor no Brasil é fazer com que ele desenvolva posturas e atitudes importantes, que refletirão positivamente nas crianças. Na prática, a Pedagogia de Emergência oferece ferramentas e atividades que auxiliam a trabalhar na sala de aula.

Como a Pedagogia Waldorf ajuda na Pedagogia de Emergência?

“Nós trabalhamos com a ideia de o trauma ser uma ferida, não na forma física, mas sim psicológica. Isso pode fazer com que a criança não consiga dormir, alimentar-se adequadamente ou se concentrar, por exemplo. Em alguns momentos, apresentam distúrbios nas relações e têm dificuldades com a própria vida. Em casos extremos, podem machucar a si ou aos outros”.

“E na magia da Pedagogia de Emergência, a arte e o brincar facilitam a cura. Criar, pintar, escrever, cantar, dançar podem dissolver algum enrijecimento existente. Muitos especialistas concordam que os traumas podem ser curados quando o ritmo volta e que, então, começamos a entender melhor o que passamos. Quando começo a me soltar, esse processo de recuperação se inicia”, comenta Reinaldo.

Nessa abordagem, há, também um pouco de psicologia: é preciso entender a dificuldade de uma criança, ao se expressar. “É comum que ela sinta vergonha ou ache difícil falar. É algo que dói nela, por isso, usamos os recursos artísticos”, completa.

Reinaldo, ainda, defende ser interessante o professor saber interpretar desenhos infantis, pois isso ajuda na análise do estado emocional da criança. “Porque uma coisa é lidar com alguém que sinta medo e tristeza, outra é atuar quando isso já se transformou em uma depressão ou síndrome de pânico. É importante diferenciar essas situações, até para saber quando encaminhar a pessoa a um especialista”.

Quais os benefícios da Pedagogia de Emergência para os alunos?

Segundo Reinaldo, um dos grandes benefícios da Pedagogia de Emergência é a possibilidade de intervir logo após um evento traumático. “E, quando conseguimos acesso às crianças e aos jovens, eles têm a oportunidade de lidar melhor com a situação vivenciada. Trabalhar de forma artística, como já comentei, facilita a exteriorização de emoções e pensamentos”.

Dito com outras palavras, o fato de facilitar laços com professores e incentivar a criança à expressão, por meio da arte, ajuda a tratar o trauma, de maneira leve, e permite aos alunos a oportunidade de uma vida mais saudável, em todos os sentidos.

Assegurar um ensino humanizado e colaborativo, além da Pedagogia tradicional, está entre os ideais de uma educação do futuro. A Pedagogia de Emergência tem muito a contribuir nesse sentido, propiciando uma formação de professores não apenas focados em ensinar disciplinas, mas, sobretudo, atentos às vivências e necessidades psíquicas do aluno.

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