Há tempo para uma segunda graduação?

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por Gabriela Sanchez

Decidir o rumo de nossas vidas no ensino médio não é uma tarefa   fácil. Assim como não é fácil elencar o que irá pesar na balança para esta escolha. Desde a questão financeira (antes, durante e depois), até o quanto iremos nos realizar com essa escolha. Fora a eterna questão, se seremos suficientemente eficientes, se temos capacidade pra isso ou pra aquilo.

Eu, por exemplo, na adolescência, adorava artes, ouvir e contar histórias, mas não sabia onde colocar isso. Também gostava de várias matérias como física, astronomia, ciências, mecânica… Levei dois anos para decidir pela minha primeira graduação. Cheguei a fazer um pouco de tudo e no fim, decidi por fazer Propaganda e Marketing, que não tinha nada a ver com o que eu queria, mas pensei estar próxima ao cinema, a um lugar de criar histórias com arte.

Não é que eu não sabia o que eu queria, mas eu não sabia se o que eu queria era uma boa escolha pra toda uma vida, pois é assim que fazem a gente acreditar ser, uma escolha pra toda vida.

A gente escolhe e vai seguindo…

Transformações internas pedem uma mudança no entorno, em nossas escolhas.

Sabemos que estamos em constante transformação, mas poucas vezes nos damos conta de que essas transformações internas pedem uma mudança no entorno, em nossas escolhas. O problema é que muitas vezes achamos que não há tempo pra certas mudanças, ou pior, que não seremos capazes de fazê-las.

Por vezes, temos a sorte da vida lindamente nos dar um pontapé, nos tirando do eixo e nos obrigando a tomar uma atitude dessas. Foi exatamente o que aconteceu comigo.

Já com quarenta e poucos anos de idade, após o nascimento de minha filha, fui procurar escolas pra ela. Nesse caminho, cruzei com a pedagogia Waldorf e fiquei completamente arrebatada. O primeiro pensamento foi, essa é escola que eu sonhei frequentar na vida.

Matriculamos nossa filha no mesmo instante e foi uma alegria imensa ver ela caminhar numa escola assim, se desenvolver sendo respeitada, estimulada, acolhida… Aos poucos fui me interessando em saber mais sobre essa pedagogia, até que começaram a me perguntar se eu não tinha interesse em cursar uma faculdade inspirada na pedagogia Waldorf.

Claro que no primeiro instante, vem como uma avalanche de justificativas para nos manter exatamente onde estamos, na tal zona de conforto. Imagina, sentar numa carteira, com estojo, mala, no meio de um monte de adolescentes, por quatro anos, por horas da sua noite, fazer provas, trabalhos, TCC de novo! Sim, tudo isso passou pela minha mente, e adiei esse passo por um tempo, mas foi inevitável dá-lo, pois fazia muito sentido pra mim.

Toda vez que eu contava pra alguém que faria faculdade novamente, as mesmas questões eram levantadas por eles, carteira, prova, adolescentes, quatro anos…

Então, se isso também já passou pela sua cabeça, vou te responder o seguinte, no dia que fui prestar o vestibular para essa segunda graduação a diretora foi até a sala onde aplicavam as provas e nos mostrou a grade curricular. Naquela hora, vendo tudo o que eu poderia aprender e como eram fascinantes as matérias, uma lágrima rolou no meu rosto, eu abaixei a cabeça e me observei ali, sem saber se saberia fazer aquele teste, se lembraria as coisas que já estudei, mas ao mesmo tempo, eu tinha a consciência de tudo que eu carregava comigo, sabia o quanto eu poderia acrescentar, o quanto eu saberia aproveitar profundamente daquilo tudo e como era uma oportunidade absurda estar ali, recomeçando com tanto já vivido.

Sim, eu passei no vestibular e estou no último ano dessa segunda graduação, com quarenta e seis anos, dando aula num Jardim Waldorf, feliz da vida e espero não parar de estudar nunca.

Aproveitei de forma completamente diferente essa segunda graduação, com outra qualidade de escuta, outro olhar, outro entendimento sobre minha relação com o mundo, sobre o que realmente importa pra mim.

E sobre estar numa sala de aula com gente mais jovem, digo que foi um convívio absolutamente precioso, divertido e emocionante. Eles me ensinaram muito e espero seguir aprendendo com todos os jovens alunos que estiverem em meu caminho.

Tudo é uma escolha, fazer ou não fazer, e de qualquer forma, o tempo segue. De qualquer forma, eu estaria quatro anos mais velha hoje. Que bom que estou mais velha e sou professora Waldorf.

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